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Dez perguntas para jornalistas na era da sobrecarga digital

Publicado em Uncategorized por carolina em 08/06/2009

Descobri um blog muito interessante, o Newsless. O autor, Matt Thompson, pesquisador do Reynolds Journalism Institute, explica o paradoxo de um blog sobre jornalismo digital chamar-se ‘newsless’, ou ’sem notícias’:

Although many use the terms “news” and “journalism” interchangeably, I think that journalism also encompasses something much more important — context. News certainly has its place. But I aim to use this site to advance the discussion of how we can better use the Web to deliver context in journalism.

Em português:

Embora muitos usem os termos ‘notícias’ e ‘jornalismo’ como sinônimos, eu acredito que jornalismo também consista em algo muito mais importante – contexto. As notícias certamente tem seu lugar. Mas eu pretendo usar este site para avançar na discussão sobre como podemos usar melhor a Web para agregar contexto ao jornalismo.

Matt escreveu um post muito interessante, chamado Ten questions to journalists in the era of overload.  Neste texto ele levanta questões muito pertinentes para jornalistas ’sobrecarregados’. Reiterando que seu compromisso com o jornalismo está muito mais focado no contexto do que nas notícias, Matt elenca dez questões essenciais neste momento de transição, em que novas maneiras de prover contexto estão sendo experimentadas. Traduzi-as livremente, resumindo as respostas oferecidas por Matt. No post original, em inglês, ele oferece links que aprofundam cada uma das questões. Vamos a elas:

1. Estamos fazendo nossa comunidade se sentir bem informada ou meramente distraída?

Segundo ele, ver milhares de manchetes em um site de notícias faz com que muitos consumidores de mídia sintam-se confusos e sobrecarregados, e não mais informados. Isso significa que o layout e o design da página devem comunicar uma clara hierarquia de informação (olha a interface aí!). O site deve convidar os visitantes com informações concisas sobre tópicos que sejam relevantes para eles, e permitir que eles se aprofundem nos detalhes se assim eles decidirem. Nada de empurar manchetes e links só para manter os internautas clicando.

2. Quão importante é este assunto para nossa comunidade, e por quê?

Esta, supostamente, deve ser uma pergunta feita pelos editores o tempo todo, mas o mix de manchetes na maioria dos sites de notícias parece ser movido mais pelo imediatismo do que pela relevância dos tópicos. Faz sentido: histórias efêmeras frequentemente tem mais pageviews, e isto significa mais publicidade. Mas esta é uma estratégia equivocada, especialmente em um contexto local. O jornalista deve buscar um ter uma relação duradoura com seus visitantes.

3. Estamos buscando a história mais relevante, ou a mais recente?

O ciclo de notícias, como o conhecemos, tem como objetivo ‘preencher buracos’ – encontrar qualquer acontecimento interessante e jogá-lo na página ou encaixá-lo na transmissão. Livre dos limites do tempo e do espaço, o ciclo de notícias do futuro deve aprofundar as histórias mais interessantes – reportar novos desdobramentos, claro, mas também explorar diferentes ângulos e estabelecer relações.

4. Estamos sintetizando informações, ou apenas agregando-as?

Sites de notícias começam a perceber que uma série de links sobre uma história pode ser tão importante como outro texto sobre o mesmo assunto. Mas muitas destas coleções de links são resultados de ferramentas de buscas problemáticas, que operam por algoritmos complexos e ineficientes. Links devem complementar, e não duplicar uns aos outros. É preferível uma seleção modesta de links úteis do que páginas e páginas de ruído.

5. Como estamos servindo àqueles que sabem muito/pouco sobre o assunto?

Aos iniciantes em um assunto, o jornalista deve fornecer uma recapitulação simples e digerível. Aos experts, deve oferecer um texto com informações novas e vastos bancos de dados. Ele deve guiar os incipientes através de conhecimentos avançados sobre qualquer tópico que eles queiram explorar, mas sua preocupação fundamental deve ser que os iniciantes entendam o contexto básico da matéria.

6. Estamos fornecendo uma trilha clara através da nossa cobertura?

Uma das características mais sensacionais da Web é sua habilidade de lidar com histórias não-lineares. Hyperlinks permitem uma nova maneira de contar histórias, que consegue mimetizar o fluxo livre e caótico do pensamento humano. Mas a linearidade tem seu valor. Grande parte do sentimento de sobrecarga é também o sentimento de confusão em meio a um emaranhado de informações. Deve-se oferecer uma navegação clara dentro e entre tópicos.

7. Estamos usando mil palavras onde deveria haver uma imagem?

A habilidade de fotos, sons e gráficos ilustrar o que as palavras não podem comunicar é fato consumado. Mas, frequentemente, o jornalismo digital não utiliza os recursos multimídias para  contar uma história coerente de forma eficaz. Deve-se mudar o foco: de meramente produzir mais recursos multimídias para integrar recursos multimídias mais eficientes.

8. Como estão nossos filtros?

Matt cita o tecnólogo Clay Shirky, que afirma que não existe sobrecarga de informação, mas sim uma falha no filtro.  Acreditando ou não nesta afirmação, é muito provável que você já tenha sofrido com as ferramentas de busca de um site de notícias. (Em outro post, falei sobre os problemas com a busca avançada no site do JB Online.) Os visitantes devem poder contar com boas ferramentas para filtrar as informações apresentadas pelo website. Tagging e taxonomia podem tornar-se a base de filtros eficientes. Quanto mais informação for oferecida, melhores os filtros devem ser.

9. Nossa cobertura vai conseguir encontrar seu público?

É irrealista esperar que todo tópico considerado relevante alcance todas as pessoas que ele deveria alcançar. Mas focando atenção e esforço nas histórias consideradas mais importantes, e continuando a aprofundá-las através do tempo, é mais fácil certificar-se de que estas histórias serão encontradas. É importante também questionar se o público está sendo procurado, em lugar de simplesmente esperar que ele venha a nós.

10. Como estamos lidando com nossa própria sobrecarga de informação?

À medida em que exploramos como a sobrecarga de informação afeta os hábitos de consumo de mídia, não podemos negligenciar seus efeitos em nossas técnicas de reportagem. Jornalistas na era da sobrecarga devem ser mestres do gerenciamento de informação. Devemos encontrar uma maneira de continuar na crista da onda em um mundo de caixas de email, caixas de comentários, atualizações de Twitter, RSS feeds e newsletters. O lado positivo é que, se estivermos fazendo a coisa certa, se estivermos oferecendo um serviço relevante para a comunidade, esta mesma comunidade vai nos ajudar a lidar com este fluxo de informações, ajudando-nos a navegar em um mar de documentos, chamando nossa atenção para desdobramentos importantes, ou repassando informações oriundas de lugares difíceis de alcançar. Nosso público é certamente nosso melhor aliado.

Uma resposta

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  1. Daniel Braga said, on 17/06/2009 at 12:06

    Pecebi muita proximidade das considerações com as heurísticas de Nielsen, obviamente, numa linguagem adaptada para o jornalismo da era digital, o que me trouxe lembranças sobre problemas talvez antigos, um deles bem descrito na questão 2. Infelizmente (ou felizmente, ainda não sei), dependemos da publicidade para nos mantermos, e mesmo no mundo virtual, sem ela dificilmente nos sustentaríamos, vide exemplo do site Congresso em Foco, uma forma de jornalismo intrigante, contudo, fadado a complicações por assumir um estilo “a-publicitário”. Além dessa proposição, o item 10 me chamou a atenção por sua condicionante, destacada de maneira pertinente. Talvez SE compreendermos todas essas considerações da postagem, a definição de ser jornalista não apareça de forma tão equivocada nos impressos de domingo (14/06/09).


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